Resgatando nossa ancestralidade: Aldeia Karugwá participa do Projeto “Agrofloresta em Timburi”

Mesmo trabalhando com comunidades locais e povos tradicionais em todo o mundo, nos sentimos honrados cada vez que temos a oportunidade de trabalhar com os nossos índios, os primeiros habitantes desta vasta extensão de terra, Brasil.

Muita gente não sabe, mas ainda existem povos indígenas espalhados pelo estado de São Paulo. O sudoeste do estado foi um refúgio onde permaneceram diversos povos indígenas até o início do século XX, quando houve uma expansão territorial e agrícola mais acirrada e esses povos foram expulsos e exterminados.

 A PRETATERRA escolheu a tribo Karugwá, no município de Barão de Antonina, SP, para implementar parte dos 100 hectares de agrofloresta no seu projeto “Agrofloresta para a Mata Atlântica” apoiado pela fundação do banco suíço ‘UBS Optimus Foundation’. Nesta primeira fase, serão plantados até 5 hectares na aldeia indígena e o intuito é expandir para todo o território ao longo dos próximos passos do projeto.

Paula e Valter (centro), com Sr. Valdir (à esquerda), que vai receber o sistema agroflorestal e o Vice-Cacique, Boré (à direita), no workshop realizado em Timburi, SP, em dezembro de 2021. Foto: PRETATERRA

Os indígenas da aldeia Karugwá, etnia Guarani, vivem em torno de 30 famílias e 150 pessoas, em 58 alqueires de terra, ou 140 hectares. Quando ali chegaram, com seus parcos pertences, era uma terra árida, desmatada, de pastagens degradadas e de baixa produtividade.

Os descendentes dos membros mais velhos da tribo Karugwá foram indígenas que se juntaram às tropas separatistas durante a Revolução de 1932. O grupo original se desmembrou de sua aldeia-mãe localizada em Avaí, SP em 2005, quando foram para a área protegida e demarcada pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio) em Barão de Antonina, SP, na divisa com o Paraná. Originalmente foram 12 famílias pioneiras. Quando chegaram, a tribo enfrentou muita discriminação dos vizinhos e do município. Depois de um longo trabalho de alinhamento e de construção de amizades, hoje contam com forte apoio da prefeitura local.

Guerreiro Nathan com seu filho na Aldeia Karugwá
Guerreiro Nathan com seu filho na Aldeia Karugwá: ensinando as novas gerações as tradições da Aldeia. Foto: Arquivo pessoal Nathan

A tribo Karugwá abriga os descendentes destes indígenas que lutaram por suas terras e por sua cultura e conseguiram se manter no território por mais de 4 séculos de colonização. Apenas um dos membros mais experientes da tribo, seu Valdeci, sabe falar a língua originária de seu povo. Agora, seu Valdeci ensina seus companheiros e as próximas gerações, para manter viva sua cultura.

Hoje os membros da tribo Karugwá vivem da produção agrícola, ainda incipiente, do artesanato e do turismo. Alguns membros da tribo são professores e assistentes de saúde municipais, outros também trabalham fora da aldeia, em fábricas locais. Os membros mais velhos recebem aposentadoria.

Na tribo, a ideia da agrofloresta já é muito difundida. Muitos trabalham com quintais agroflorestais para subsistência, e contam com o auxílio de agrônomo da Funai para assistência técnica. Seu modo de vida praticamente autossuficiente é baseado na agricultura de subsistência, com produção de mandioca, milho, feijão, banana e frutas diversas, além da criação de galinhas, porcos, gado de leite e de corte e peixes. Para comercializar, os indígenas cultivam maracujá, manga, mamão, abacate e morango, produtos que vendem para agroindústria de polpas da região.

Nas conversas com os mais velhos, quando entendemos as espécies que utilizam e as práticas agrícolas que adotam, fica claro que trazer agrofloresta é na verdade um resgate da cultura ancestral desse povo.

Área com plantio de milho
Área com plantio de milho à esquerda e área pronta para o plantio do sistema agroflorestal com café e espécies de madeira e frutas nativas da Mata Atlântica. Foto: PRETATERRA

Boa parte do território, especialmente nas áreas mais íngremes ou na beira dos corpos d`água, foi protegida e enriquecida com espécies nativas e, por isso, em alguns pontos a floresta voltou a se entremear na paisagem. Hoje mais de 30% da área voltou a ser floresta e eles querem mais: fazer restauração produtiva usando espécies frutíferas nativas na recuperação dessas matas ciliares.

Os jovens são muito ativos na comunidade e desenvolvem atividades para resgatar sua cultura. Sandro se juntou ao agrônomo da Funai que os apoia para restaurar as nascentes da sua terra. Nathan aprendeu com seu pai o artesanato do seu povo usando materiais da floresta, como fibras de palmeiras ou cipós, couro de lagarto e jacaré, penas de aves, sementes e cascas de frutos secos para elaborar desde braceletes, colares e cocares para eventos culturais e mobilizações de grupos indígenas, até bordunas, estilingues e arcos e flexas para caça e proteção. Aprendeu a arte indígena com seu pai Valdeir, cujo nome em sua língua original, o guarani, é Tupã kutsuwidju, que significa “Guardião do tempo”.

Para nós é realmente muito empolgante ser convidado a treinar arco e flexa por um guerreiro como Nathan e ganhar um bracelete digno de guerreiro. É uma oportunidade única que se apresenta durante os momentos de integração com a comunidade e estamos muito honrados por isso.

O trabalho da PRETATERRA é olhar para os primeiros habitantes do Brasil e ajudá-los a resgatar seus conhecimentos de uma agricultura ancestral e resiliente através da ótica de uma agrofloresta inovadora e integradora, o que nos ajuda a fortalecer os laços sociais e históricos mais intrínsecos, aqueles que verdadeiramente unem um povo em sua essência. A agrofloresta aqui mostra-se como uma ferramenta de resiliência, união, perseverança e pertencimento, por uma agricultura ambientalmente mais sustentável e socialmente mais integradora.

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